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sábado, 21 de abril de 2012

O QUE É TECNOLOGIA



 A palavra tecnologia sugere objetos. Coisas complexas e feitas de átomos. Locomotivas a vapor, telefones, computadores, substâncias químicas e chips de silício. Quando esse mundo de coisas começou a surgir, séculos atrás, encaramos o fenômeno como uma revolução material, embora todas as mudanças que trazia fossem, na verdade, causadas pelo desenvolvimento da capacidade de utilizar a energia de forma orientada. A magia do material estava no fato de conseguir conservar, transmitir ou exibir energia em pequenas quantidades no momento certo (sinais) ou em explosões sob demanda (quantidade de calor).
Esses objetos perderam recentemente parte de sua massa. Começamos a enxergá-los como ação. Hoje, o termo tecnologia sugere softwares, engenharia genética, realidade virtual, banda larga, formas de vigilância e inteligência artificial. Se uma dessas coisas caísse no seu pé, você não machucaria o dedão. A tecnologia tornou-se uma força. É um verbo, não mais um substantivo. Sua ação mostrou-se tão forte que, agora, percebemos a tecnologia como um superpoder e também como algo que sempre leva a culpa quando uma coisa dá errado. Na realidade, a tecnologia é matéria, é força e é muito mais. É tudo o que criamos: literatura, pintura, música. Bibliotecas são tecnologias. Como também o são os registros contábeis, a legislação civil, os calendários, as instituições, todas as ciências, bem como o arado, as roupas, os sistemas de saneamento, os exames médicos, os nomes de pessoas e o alfinete de segurança. Tudo o que nossa inteligência produz pode ser considerado tecnologia.
Parece estranho que um soneto de Shakespeare ou uma fuga de Bach sejam colocados no mesmo plano de coisas como a bomba nuclear ou o walkman? Mas, se 1 000 linhas de letras são uma tecnologia (como o código de uma página HTML, usado para veicular textos e imagens na internet), então,1 000 linhas de letras em inglês (Hamlet) também devem ser. Não é possível separar o que é tecnologia tanto no livro como no filme O Senhor dos Anéis. A versão literária do romance original é tão tecnológica, no sentido estrito da palavra, quanto a versão digital das criaturas e dos lugares fantásticos expostos na tela. Ambas são obras da imaginação humana. Ambas afetam o público de forma poderosa.
A tecnologia, portanto, pode ser considerada um tipo de pensamento – um pensamento expresso. Seria possível encarar o elaborado sistema legislativo que norteia as sociedades ocidentais como uma variedade de software. Trata-se de um código, um conjunto complexo de regras, mas que funciona com suporte no papel, não em um computador. Tanto o código do sistema legislativo quanto o de um software são manifestações do pensamento humano.
Muitas pessoas se perguntam como a tecnologia pode tornar o homem melhor. Simples: da mesma maneira que a tecnologia das leis torna os homens melhores. Um sistema legal nos mantém responsáveis, estimula o senso de justiça, contém impulsos indesejados, alimenta a confiança, e assim por diante. Há, contudo, leis boas e más, e alguns sistemas legislativos (tecnologias legais) são melhores do que outros. A resposta correta a uma má legislação não é ausência de legislação. É, sim, uma legislação melhor. A resposta correta a uma ideia ruim não é parar de pensar. É uma ideia melhor. A resposta correta a uma tecnologia ruim não é parar a tecnologia. É uma tecnologia melhor. Pelos meus cálculos, a soma total das tecnologias é igual à civilização. Civilização é tecnologia. Tecnologia é a obra cumulativa agregada da imaginação e da invenção humanas.
Mas qual é a contribuição que a tecnologia realmente nos dá? O avanço proporcionado por ela nem sempre é evidente e perceptível. Todo pensamento pode ser subvertido. Nesse sentido, toda tecnologia pode ser vítima de abusos. Além do mais, todas as soluções que a tecnologia oferece trazem também novos problemas. Mas é preciso observar que, em última instância, a tecnologia amplia as nossas possibilidades de escolha. Em geral, uma tecnologia apresenta aos seres humanos outra maneira de pensar sobre algo. Cada invenção permite outra forma de ver a vida. Cada ferramenta, material ou mídia adicional que inventamos oferece à humanidade uma nova maneira de expressar nossos sentimentos e outra forma de testar a verdade. À medida que novas maneiras de expressar a condição humana são criadas, amplia-se o conjunto de pessoas que podem encontrar seu lugar único no mundo.
A tecnologia nos proporciona escolhas. Assim, sua principal contribuição está expressa nas possibilidades, nas oportunidades e na diversidade de ideias. Sem ela, temos muito pouco disso. Nosso trabalho coletivo é substituir tecnologias que limitam nosso poder de escolha por aquelas que o ampliam. O telefone, por exemplo, é uma tecnologia que amplia continuamente as oportunidades – e fecha muito poucas. O DDT (composição química usada como inseticida) é uma tecnologia que abre importantes possibilidades, mas restringe algumas outras. A engenharia genética inaugura um vasto terreno de escolhas, mas seu potencial para restringir muitas outras é amplo e incerto.
A tecnologia pode tornar uma pessoa melhor? Sim, mas somente se oferecer a ela novas oportunidades. Oportunidade de obter excelência com a mistura única de talentos com que nasceu. Oportunidade de encontrar novas ideias e novas mentes. Oportunidade de ser diferente de seus pais. Oportunidade de criar algo. Serei o primeiro a acrescentar que, isoladas – sem nada em torno delas –, essas oportunidades são insuficientes para produzir a felicidade. A escolha funciona melhor quando há valores para guiá-la. De qualquer forma, considero que a tecnologia é necessária para o aprimoramento humano, da mesma maneira que a civilização. O mundo da tecnologia e a civilização são a mesma coisa.
Um subconjunto especial de seres humanos pensa de forma diferente. Avista o caminho para o aprimoramento no conjunto limitado de opções existente, digamos na cela de um mosteiro, na caverna de um ermitão ou nas possibilidades deliberadamente restritas de um guru errante. Mas a maioria das pessoas, em quase todos os momentos na história, vê o estoque acumulado de possibilidades em uma civilização como algo que as torna melhores. É por essa razão que fundamos a civilização/tecnologia. É por essa razão que temos cidades e bibliotecas. Elas produzem escolhas. Essa é a grande contribuição da tecnologia: abrir possibilidades – em montanhas sempre maiores de diversidade. Como a própria vida biológica (apesar de seus muitos horrores), acredito que a criação de novas possibilidades representa um bem inequívoco para todos nós.

 Sobre o autor:
 Kevin Kelly, um dos fundadores da revista Wired, escreveu vários livros sobre tecnologia, entre eles “Novas Regras para uma Nova Economia”, publicado em português. Este ensaio foi publicado originalmente em seu blog para discussão pública antes de aparecer em forma de livro.


UNIVERSO, CIÊNCIA E EMOÇÃO



Quando eu era bem jovem, alguém me disse ou li em algum lugar que o universo era infinito! Passei a imaginar como alguma coisa poderia ser infinita, pois, sempre tive uma mente “exata” a partir da qual pensava que todas as coisas poderiam ser dimensionadas, como eram as coisas aqui da Terra. Infinito para mim era uma sensação!  Ou um artifício da matemática: os números eram infinitos, mas, isso era fácil de compreender, bastava ir colocando zeros até não caber mais no papel e completar com reticências ou representar pelo “oito deitado”, mas, universo infinito? Como poderia alguma coisa nunca ter fim? E se não tinha fim, onde se apoiava? Não, não, se era infinito então abrangia tudo o que existe, até Deus! Ou será que Deus era o universo, afinal aprendi também que Deus não teve princípio e não teria fim ...
Esse conhecimento foi de longe o mais marcante e intrigante da minha vida e  me levou a sentimentos extremos de surpresa, alegria, medo, dúvida, angústia e,  a  tentativa de elaborar uma representação do universo que me levasse a  sua compreensão me dava (e ainda dá) “um nó na cabeça” e um “frio na barriga”, pois, não levou muito tempo para que eu associasse a imensidão do universo à minha pequenez  e, a sua eternidade à minha transitoriedade!
Mais tarde, aprendi que o universo surgiu de um ponto que concentrava toda a matéria (ou toda a energia) que existe hoje! Outro mistério intrigante! Como poderia haver um ponto com tudo dentro, imerso no nada!?! E o que era o nada? O contrário de infinito?
A minha experiência pessoal revela o nível de abstração necessário para a compreensão dos conceitos de astronomia. Ao tratarmos esse tema com nossos alunos será necessário um cuidado no sentido de deslocá-los da Terra em direção ao cosmos, numa perspectiva que transcende a materialidade física de tempo e espaço ( a estrela que vemos hoje pode ter morrido há algum tempo) . Essa compreensão do universo deve ampliar a visão de mundo do aluno, dimensionando a sua condição terrena dentro do universo e dando-lhe possibilidades de melhor entendimento sobre o ambiente terrestre e suas responsabilidades com o planeta.
Enfim, aprender astronomia exige além do conhecimento científico, um componente psíquico que leve a uma ampliação da consciência, a partir da percepção da integração do eu com o universo, ou seja, de senso cosmológico.

Referências:
 MEDEIROS, L. A. L. Cosmoeducação: uma abordagem trandisciplinar no ensino de astronomia. (Dissertação) UFRN: Natal, 2006. pp. 30-37
 MEDEIROS, L. A. L. Cosmoeducação: uma abordagem transdisciplinar no ensino de astronomia. (Dissertação ) UFRN: Natal, 2006. pp. 85-94